Com 35 anos dedicados à comunicação do Vaticano, Silvonei José revisita sua história pessoal e profissional ao falar de vocação, verdade, sacrifícios e da responsabilidade de comunicar a esperança
“Não se pode comunicar aquilo que não se vive.” A afirmação é de Silvonei José, jornalista, doutor em Comunicação e há 36 anos responsável pela língua portuguesa da Rádio Vaticano, Vatican News e Vatican Media. Com a experiência de ter acompanhado de perto os pontificados de João Paulo II, Bento XVI, Francisco e agora de Leão XIV, Silvonei reflete sobre formação, escolhas, sacrifícios e a missão de comunicar a vida e a esperança em um tempo marcado por desinformação, superficialidade e discursos de ódio. Suas palavras, firmes e enraizadas na prática cotidiana da comunicação, revelam os fundamentos de um ofício que exige coerência entre vida e mensagem.
Após o tempo de seminarista, pensava em ser médico
Silvonei não nasceu comunicador. Na juventude, seu sonho era a Medicina. “Quando eu era jovem, a minha ideia, ou a minha vontade, era ser médico”, recorda. A guinada veio quando foi convidado a trabalhar na rádio de sua diocese, em Guarapuava (PR), produzindo notícias da Igreja. “Ali mudou um pouco a minha existência, porque eu comecei, aos poucos, a ter um gosto da ferramenta chamada palavra”, relata. O que parecia provisório se tornou definitivo: a comunicação como vocação.
Desde o início, ele aprendeu que comunicar não é ocupar espaço, mas assumir responsabilidade. “Comunicar não é ficar falando abobrinhas. É falar algo com conteúdo para as pessoas”, afirma. Para ele, não existe comunicação autêntica sem formação. “Para saber se comunicar, tem que ter conteúdo. E aí precisa da formação. Precisa ir atrás”, insiste. O comunicador, na sua visão, não é apenas quem fala bem, mas quem estuda, escuta e se compromete com a verdade.
Ao tratar das quedas e fragilidades do percurso, Silvonei recorre à imagem da “casca de banana”, que se tornou marca de sua reflexão sobre humildade e aprendizado. “Quando a gente cai, muitas vezes vai precisar da mão do outro. Aí temos o gesto da humildade de pedir ajuda”, explica. Para ele, a queda não desautoriza o comunicador; ao contrário, pode ser parte do processo formativo.
O referencial é Jesus
Sua referência maior continua sendo Jesus. “Nós temos um comunicador perfeito, que é Jesus. Ele comunicava a si mesmo”, afirma. Não se trata apenas de transmitir ideias, mas de comunicar a própria vida. Daí nasce a frase que sintetiza todo o seu pensamento: comunicar exige coerência existencial.
A vivência de mais de três décadas no Vaticano lhe permitiu enxergar, também, como cada pontificado marcou sua própria espiritualidade e forma de comunicar. Ele resume essa trajetória em três palavras. De São João Paulo II, ficou o testemunho da oração: “Ele não fazia nada sem dobrar os joelhos”. De Bento XVI, a força da pertença: “Por que eu sou católico?”. De Francisco, a centralidade da misericórdia: “Temos um Deus que perdoa sempre e tudo”. Para Silvonei, oração, pertença e misericórdia formam a base espiritual de toda comunicação cristã.
Verdade como lugar de resistência
O olhar sobre as juventudes é direto e exigente. Ele rejeita a ideia de que os jovens sejam apenas “o futuro”. “Eu cancelei essa frase. Vocês são o presente”, afirma. Um presente que exige coragem diante de um mundo que empurra para a superficialidade, para a cultura do provisório e para o medo de escolhas definitivas. “Entramos na cultura do provisório, onde não vale a pena se comprometer”, alerta.
Em tempos de fake news e polarizações, Silvonei fala da verdade como um lugar de resistência ética. “No mundo das fake news, a verdade não é uma opinião. Para nós, a verdade tem um nome”, afirma. Para ele, a comunicação não pode ser instrumento de destruição do outro. “A comunicação é serviço. A comunicação é responsabilidade. Comunicação é coisa séria”, reforça.
Também ao falar de talentos, sua palavra é firme. “O talento adormecido não serve para nada”, diz. Ele lembra que a própria trajetória foi construída com sacrifício, constância e renúncias, como as décadas sem passar a noite de Natal com a família por estar a serviço das transmissões do Vaticano. “A qualidade exige abnegação”, resume.
Ao final de sua reflexão, Silvonei retorna ao ponto central que dá sentido a tudo o que viveu e comunicou: a unidade entre palavra e testemunho. Em um mundo saturado de discursos e carente de sentido, sua afirmação permanece como critério e provocação:
“Não se pode comunicar aquilo que não se vive.”
